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10/05/2008

Coisa de novela

Não tenho o costume de estar assistindo, muito menos comentando novelas. Afinal, que espécie de homem e o que perde tempo com estes folhetins?! (Mentira! Sou noveleiro mesmo! E ainda fico comentando em casa!)

Porém, uma cena despertou meu senso crítico nos últimos dias. Nosso protagonista e companheiro do folhetim das nove horas, Evilásio, num comício político. A cena foi tocante. Não consegui me conter. Quase deixo lágrimas rolarem pelo meu rosto. A cena inicia-se com sua sogra (SOGRA! IMAGINEM SÓ!) discursando com extrema coerência em defesa de seu genro e de assuntos como igualdade racial, de gênero e uma série de outras causas sociais.Calma! Ainda não acabou por aí... Depois o próprio Evilásio assume o microfone e inicia seu discurso. Neste momento quase tenho orgasmos múltiplos no sofá da sala. O protagonista inaugura sua oratória citando Martin Luther King! O candidato à vereador proveniente da Portelinha não perde o ritmo e lembra-nos do grandioso Obama – candidato à presidência dos Estados Unidos, quase vencedor , por sinal – como um dos exemplos de sua luta em prol das minorias necessitadas. E conclui seu discurso vibrante nos fazendo acreditar que realmente o Brasil e a Portelinha têm jeito! Perfeito! Encantador!

Estou convicto de que Evilásio Caó (não sei exatamente a grafia exata de seu nome, preciso de um santinho!) possui o espírito político que nossa nação precisa pra entrar nos eixos! Trata-se de homem jovem, honesto, vindo de camadas sociais desfavorecidas, um homem de garra, que defende os interesses do povo! Enfim, eu não tenho mais dúvidas, o meu voto é de Evilásio!

 É uma pena que ele seja um personagem da ficção.

Fico pensando no que o diretor da novela queria que nós pensássemos da cena. Será que ele queria nos mostrar que este tipo de político só existe mesmo na novela das oito? Eu gostaria tanto de vê-lo no Jornal Nacional... São apenas alguns minutos antes. É uma pena mesmo. Resta saber - e fica uma réstia de esperança - que o autor tenha se inspirado em algum ser humano real. Difícil de acreditar não é? Infelizmente é muito difícil.

Bom, então vocês já sabem.  “Na eleição a certeza é uma só, o voto certo é Evilásio Caó!” (Acabei de criar o slogan). Na ficção ele é bastante promissor...

 

Juliano Leví (que anda pensando seriamente em procurar o tal candidato e se oferecer pra ajudar na campanha.)


Juliano Levi, 23h17

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06/05/2008

Pequeno conto que fala sobre a vida e as pequenas coisas

Tarde quente no interior do estado. André pára seu Citröen em frente à cancela de uma chácara. Ele é um Engenheiro Chefe do setor de Mecatrônica de uma grande empresa da capital. André é jovem e teve uma ascensão muito rápida dentro da empresa. Em um ano e meio de trabalho já ocupava o cargo mais alto de seu setor. “Isso merece grandes comemorações”, disse ele quando entrou de férias...

E que férias! Dos vinte dias que ele tinha disponível, em quinze ele curtiu inclusive de forma excessiva. Bebeu, perdeu noites, envolveu-se com várias mulheres, tudo isso sem descanso adequado.

 

Agora estava parado em frente àquela chácara justamente para isso: descansar. Resolveu depois de tanta agitação, passar alguns dias no sítio de sua avó. Entrou no sítio, estacionou o carro – novo, por sinal, - falou com avó educadamente e foi arrumar suas coisas num quarto já reservado para ele.

“Cinco dias de tranqüilidade”, pensou. E realmente era muito agradável àquele sítio. Havia cavalos, uma piscina, um pequeno bosque com uma cachoeira escondida por lá, enfim, para André era praticamente impossível alguém não se sentir feliz ali.

 

Mas era justamente o que parecia acontecer com a velha. Ela não deixava de comer, nem de fazer pequenas tarefas da casa, porém não as executava com a alegria e o sorriso que André estava acostumado a ver em outras épocas. Ela andava amuada, meio jururu, assim borocochô sabe? E assim manteve-se por dois dias. No terceiro André resolveu procurar saber. Falou com o primo, que era caseiro, e com quem ele havia convivido durante a infância. O primo também não sabia direito o motivo, mas falou que a velha ficava assim quando não conseguia resolver alguma coisa.

 

O rapaz da capital resolveu conversar com a avó. Perguntar o que estava acontecendo afinal. Ele mal começou a falar, a velha virou-se e tomou o rumo dos fundos da casa. Ele achou que devia parar de perguntar, que a velha não queria conta com ele, sei lá. Cinco minutos depois ela voltou carregando um velho rádio Telefünken que tinha quase a idade dela.

Sem dizer uma palavra estendeu o dinossauro para o neto. Ele compactuou com o silêncio e se pôs a examinar o trambolho. Era um rádio velho, somente pra AM/FM, mas ainda funcionava. Troca um fio aqui, um fusível ali - “sabia que um dia iria usar aquela caixa de ferramentas!” – e voilá! Estava lá a relíquia funcionando sem ruído algum. Pela primeira vez, desde que chegou, voltou a ver o velho sorriso no rosto da velha. Aquele tipo de conserto era primário pra quem passou quatro anos estudando sistemas eletrônicos. Mas deu-lhe uma agradável sensação de competência. A avó prontamente sintonizou o rádio e ouviu a clássica Ave-Maria, das seis horas. Logo após a execução da música, desligou o rádio e voltou a fazer as coisas de sempre, desta vez alegremente.

“Ah! É tão bom quando posso ouvir minha ave-maria... muito obrigado meu netinho!”.

Beijou-o na testa e saiu cantarolando...

 

Juliano Leví  (feliz pela quebra da barreira de mil visitas do blog.  " Isso merece grandes comemorações ! " , pensou ele.)


Juliano Levi, 22h36

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