BRASIL, Nordeste, SALVADOR, BROTAS, Homem, de 20 a 25 anos, Portuguese, Twi
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De noite todos gatos são pardos,
Todas rugas são lisas,
Todo sujo é limpo,
Toda luz é clara.
De noite tudo é mais simples De noite quando todos dormem, Em sua bagunça, Não digo que o dia é ruim
Tudo é mais calmo,
Tudo é menos confuso
Tudo é quase nada.
Eu fico acordado,
E me liberto da confusão de minha mente
Que só o dia irradia.
Em sua zoada
Em suas cores exageradas
Todas muito estouradas
Só tem de aprender a ver.
Assim como a noite,
Que se mal-vista tende a assustar.
Tudo é questão de ponto de vista,
Seja ele claro ou escuro
E tudo isso que escrevi
É pra dizer que pra mim,
Tudo é menos confuso,
No escuro.
Tenho o costume exótico de abrir o dicionário aleatoriamente e refletir sobre o termo que a mim se apresenta. Trata-se, para mim, de uma brincadeira saudável. Até enriquece o vocabulário. Outro dia encontrei a palavra “blandícia”, que significa carinho, delicadeza, zelo. Gostei tanto que usei num poema.
Parei para refletir como a linguagem é um meio poderosíssimo de exclusão, discriminação e fonte de arrogância de muitos indivíduos. Cotidianamente nos deparamos com especialistas que vomitam linguagem culta, jargões, termos técnicos, tentando nos impor uma falsa imagem de infalibilidade.
A palavra que encontrei no dicionário desta vez foi “lupanar”. Não é um verbo, é um substantivo. Palavra bonita, “lupanar” é um local específico, um estabelecimento. Imaginei então uma conversa entre duas senhoras, socialites, num desses “vernissages” pelo Brasil á fora:
- Ah! Eu mesmo apoio bastante as causas filantrópicas. Sou uma pessoa bastante solidária.
- É mesmo amiga? O que você faz?
- Pois é, sempre que posso faço meu marido visitar um lupanar...
Ou então o seguinte diálogo, num consultório de um médico especialista de alto nível:
- E então doutor, meu quadro é grave?
- É preocupante. Inclusive recomendo-lhe que vá a um lupanar o mais breve possível. Vou lhe indicar um que é de minha confiança...
Enfim, imaginei inúmeras outras situações nas quais o “lupanar” seria usado. Um mero mortal que ouvisse algum desses diálogos poderia pensar: “Nossa! Que pessoas inteligentes! Como falam bonito!”
Pois bem, aí vai meu alerta: não se iluda com quem fala difícil. Essa pompa e rebuscamento normalmente servem para defender títulos acadêmicos e esconder as deficiências do indivíduo. Quem quer ser compreendido fala com clareza, não se protege sob os escudos da intelectualidade e da erudição. Farsantes, hipócritas, charlatões. Eles estão à solta. No consultório médico, no plenário nacional, nas salas de universidades, nos templos das mais diversas religiões... Cuidado com eles.
A propósito, “lupanar” é o mesmo que prostíbulo, brega, casa de entretenimento adulto sexual.
Juliano Leví ( muito satisfeito pelo retorno do blog. Vale ressaltar, nosso país está se tornando um lupanar...)